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Tradição

Luto e memória

Os costumes judaicos do luto e da rememoração — do velório e do Cadish aos três períodos de luto, ao Iortseit e à Matsevá.

Salmos e preces

Salmo 119

Costuma-se rezar o Salmo 119, recitando os versículos cujas letras iniciais pertençam ao nome hebraico do falecido. O Salmo é usado para este fim porque consiste de 22 estrofes de oito versículos, na ordem do Álef-Bêt: todos os versículos de uma mesma estrofe começam com a mesma letra hebraica.

Se o nome do falecido é יעקב (Iaacóv), recitam-se primeiro os oito versículos da letra י (Iod), depois os das letras ע (Áyin), ק (Cuf) e ב (Bêt). Alguns prosseguem no mesmo padrão com בן / בת (Ben/Bat — filho/filha) e o nome do pai do falecido; os Sefaradim usam o nome da mãe.

Escolha abaixo as letras do nome, na ordem em que se escreve, e as estrofes aparecem na sequência. Cada versículo traz o hebraico, a transliteração em letras latinas — basta ler em voz alta — e a tradução em português.

Escolha as letras do nome

Cadish

Costuma-se recitar o Cadish pelo falecimento do pai ou da mãe por onze meses após o falecimento. O Cadish é uma das mais antigas orações da liturgia judaica: uma declaração profunda de fé na grandeza infinita de Deus e um apelo pela redenção e salvação — embora não faça referência alguma a mortos ou luto.

El Malê Rachamim — a prece rememorativa

El Malê Rachamim (“Ó Deus, pleno de misericórdia”) é a prece pela alma do falecido. É recitada no sepultamento, na visita ao túmulo, no Iortseit e no Yizcor, e nela quem reza se compromete a dar caridade em memória da alma de quem partiu.

O texto muda conforme se reze por um homem ou por uma mulher. Onde aparece “(...nome...)”, diz-se o nome hebraico do falecido seguido do nome do pai — os Sefaradim usam o nome da mãe.

  1. אֵל מָלֵא רַחֲמִים שׁוֹכֵן בַּמְּרוֹמִים, הַמְצֵא מְנוּחָה נְכוֹנָה עַל כַּנְפֵי הַשְּׁכִינָה, בְּמַעֲלוֹת קְדוֹשִׁים וּטְהוֹרִים, כְּזוֹהַר הָרָקִיעַ מַזְהִירִים,

    El malê rachamim shochen bameromim, hamtsê menuchá nechoná al canfê hashechiná, bemaalot kedoshim utehorim, kezôar harakiá mazhirim,

    Ó Deus, que é pleno em misericórdia e que habita nas alturas! Concede descanso sereno, sob as asas da Divina Presença, nos degraus dos santos e puros, que resplandecem como o brilho do firmamento,

  2. לְנִשְׁמַת (פְּלוֹנִי בֶּן פְּלוֹנִי) שֶׁהָלַךְ לְעוֹלָמוֹ, בַּעֲבוּר שֶׁבְּלִי נֶדֶר אֶתֵּן צְדָקָה בְּעַד הַזְכָּרַת נִשְׁמָתוֹ, בְּגַן עֵדֶן תְּהֵא מְנוּחָתוֹ.

    lenishmat (...nome do pai...) ben (...nome do avô...) shehalach leolamo, baavur shebeli néder eten tsedacá bead azcarat nishmató, began Êden tehê menucható.

    à alma de (...nome do falecido...) filho de (...nome do avô...), que partiu para seu mundo supremo, porquanto comprometo-me, sem promessa, doar caridade em memória de sua alma. No Jardim do Éden seja seu descanso!

  3. לָכֵן בַּעַל הָרַחֲמִים יַסְתִּירֵהוּ בְּסֵתֶר כְּנָפָיו לְעוֹלָמִים, וְיִצְרֹר בִּצְרוֹר הַחַיִּים אֶת נִשְׁמָתוֹ, יהוה הוּא נַחֲלָתוֹ, וְיָנוּחַ בְּשָׁלוֹם עַל מִשְׁכָּבוֹ, וְנֹאמַר אָמֵן.

    Lachen baal harachamim iastirêhu besséter kenafav leolamim veyitsror bitsror hachayim et nishmató, Adonai hu nachalató, veianúach beshalom al mishcavo. Venomar AMEN.

    Por conseguinte, o Misericordioso ampará-lo-á sob Suas asas protetoras por toda a eternidade, e ligará sua alma à corrente da vida. O Eterno é sua herança! E que descanse em paz em sua sepultura, e digamos AMEN.

Breve resumo das leis de luto judaicas

Segundo a tradição judaica, a morte não é o fim, senão o princípio. O judaísmo considera este mundo uma preparação para o Mundo Vindouro. Os judeus veem a morte com tristeza, mas não com aflição, encontrando consolo no fato de que a morte não significa o fim de uma pessoa.

Sobre quem se observa o luto

Os sete parentes pelos quais homens e mulheres devem observar as leis de luto são: pai e mãe, filho e filha, irmão e irmã (por parte de pai ou mãe) e esposo/esposa.

Após o falecimento

Constatado com certeza o óbito, deve-se:

  • Abrir as janelas do quarto e cobrir o rosto do falecido com um pano branco
  • Após 20 minutos, retirar-lhe roupas e adornos e cobri-lo totalmente com um lençol branco
  • Colocar o corpo no chão com os pés em direção à porta, fechar seus olhos e boca
  • Acender duas velas próximo à sua cabeça
  • Contatar imediatamente a Chevra Kadisha para os cuidados do corpo, a lavagem ritual (Tahará), a preparação para o sepultamento, caixão, documentação, velório e sepultamento

O corpo não deve ficar sozinho, de dia ou de noite. É costume cobrir espelhos e superfícies polidas onde se encontram os enlutados.

Preparação do corpo

É princípio fundamental do judaísmo a honra ao corpo humano sem vida (Kibud Hamet). Depois de lavado e purificado, o corpo é envolto em mortalhas brancas e simples (Tach'richim), para ressaltar a igualdade entre rico e pobre. É proibido embalsamar e é proibido cremar; o sepultamento deve ser feito na terra — “porquanto tu és pó, e ao pó hás de tornar” (Gênesis 3:19).

Velório e Keriá

A exibição do morto em caixão aberto é considerada desonra. No recinto acendem-se duas velas, leem-se Salmos e mencionam-se as virtudes do falecido. Não é costume judaico enviar flores — a maior honra é fazer donativos a entidades de beneficência em nome do falecido.

Keriá — rasgar a roupa que se está usando — é a maneira religiosa de expressar a dor pela perda, obrigatória para os sete parentes. Pela morte de pai ou mãe rasga-se do lado esquerdo, sobre o coração; pelos demais parentes, do lado direito.

Sepultamento

O sepultamento deve realizar-se tão logo possível. Presentes ajudam a cobrir o caixão com terra como demonstração de solidariedade e honra. À saída do cemitério, todos fazem Netilat Iadáim (lavagem ritual das mãos), e antes de afastar-se colocam uma pedrinha sobre a sepultura.

Os três períodos de luto

A Lei Judaica estipula três períodos sucessivos, que diminuem gradualmente de intensidade:

Shivá
7 dias

Os enlutados permanecem em casa, sentam-se em assentos baixos e recebem as visitas de consolo. Três rezas diárias são organizadas na casa.

Shloshim
30 dias

Retomam-se as atividades normais, mantendo restrições a festas, cortes de cabelo e roupas novas. Visita ao túmulo no 30º dia.

Avelut
12 meses

Observado exclusivamente pela morte de pai ou mãe, até o primeiro aniversário do falecimento, com recitação diária do Cadish por 11 meses.

No Shabat dentro da Shivá, os sinais públicos de luto são suspensos: os enlutados vestem roupas de Shabat, vão à sinagoga e cumprimentam com “Shabat Shalom”.

Cadish — quem recita e por quanto tempo

A obrigação prioritária é do(s) filho(s) homem(ns) pela morte dos pais. O Cadish deve ser recitado diariamente (inclusive Shabat e festas) nos três ofícios religiosos — Arvit, Shacharit e Minchá — por 11 meses, a contar do dia do sepultamento, sempre na presença de Minián (dez judeus maiores de 13 anos).

“A maneira mais importante de ganhar Graça Divina para pais falecidos é o modo de vida seguido pelos filhos — de retidão, praticando boas ações e pela devoção aos caminhos de Deus. Em última análise, é a vida dos filhos que determina o valor dos anos que os pais passaram na terra.”

O texto do Cadish (Cadish Iatom)

Para quem não lê hebraico, cada trecho traz a transliteração em letras latinas — basta ler em voz alta — e a tradução em português. A transliteração segue a pronúncia israelense/sefaradi.

  1. יִתְגַּדַּל וְיִתְקַדַּשׁ שְׁמֵהּ רַבָּא.

    Yitgadal veyitcadash shemê rabá.

    Engrandecido e santificado seja o Seu grande Nome.

  2. בְּעָלְמָא דִּי בְרָא כִרְעוּתֵהּ, וְיַמְלִיךְ מַלְכוּתֵהּ בְּחַיֵּיכוֹן וּבְיוֹמֵיכוֹן וּבְחַיֵּי דְכָל בֵּית יִשְׂרָאֵל, בַּעֲגָלָא וּבִזְמַן קָרִיב, וְאִמְרוּ אָמֵן.

    Bealmá di verá chirutê, veiamlich malchutê, bechaiechon uviomechon uvchaiê dechol bet Yisrael, baagalá uvizman cariv, veimru: Amen.

    No mundo que Ele criou segundo a Sua vontade. Que Ele estabeleça o Seu reinado durante a vossa vida e os vossos dias, e durante a vida de toda a Casa de Israel, prontamente e em breve. E dizei: Amen.

  3. Todos respondem

    יְהֵא שְׁמֵהּ רַבָּא מְבָרַךְ לְעָלַם וּלְעָלְמֵי עָלְמַיָּא.

    Iehê shemê rabá mevarach lealam ulalmê almaiá.

    Seja o Seu grande Nome abençoado eternamente e para todo o sempre.

  4. יִתְבָּרַךְ וְיִשְׁתַּבַּח וְיִתְפָּאַר וְיִתְרוֹמַם וְיִתְנַשֵּׂא וְיִתְהַדָּר וְיִתְעַלֶּה וְיִתְהַלָּל שְׁמֵהּ דְּקֻדְשָׁא, בְּרִיךְ הוּא.

    Yitbarach veyishtabach veyitpaar veyitromam veyitnassê veyithadar veyitalê veyithalal shemê decudshá, berich Hu.

    Bendito, louvado, glorificado, exaltado, enaltecido, honrado, elevado e celebrado seja o Nome do Santo, bendito seja Ele.

  5. לְעֵלָּא מִן כָּל בִּרְכָתָא וְשִׁירָתָא, תֻּשְׁבְּחָתָא וְנֶחֱמָתָא, דַּאֲמִירָן בְּעָלְמָא, וְאִמְרוּ אָמֵן.

    Leelá min col birchatá veshiratá, tushbechatá venechematá, daamiran bealmá, veimru: Amen.

    Acima de todas as bênçãos, cânticos, louvores e consolações que se possam proferir no mundo. E dizei: Amen.

  6. יְהֵא שְׁלָמָא רַבָּא מִן שְׁמַיָּא, וְחַיִּים עָלֵינוּ וְעַל כָּל יִשְׂרָאֵל, וְאִמְרוּ אָמֵן.

    Iehê shelamá rabá min shemaiá, vechayim alenu veal col Yisrael, veimru: Amen.

    Que haja paz abundante vinda do Céu, e vida, para nós e para todo Israel. E dizei: Amen.

  7. עֹשֶׂה שָׁלוֹם בִּמְרוֹמָיו, הוּא יַעֲשֶׂה שָׁלוֹם עָלֵינוּ וְעַל כָּל יִשְׂרָאֵל, וְאִמְרוּ אָמֵן.

    Ossê shalom bimromav, Hu iaassê shalom alenu veal col Yisrael, veimru: Amen.

    Aquele que estabelece a paz nas Suas alturas, que Ele faça paz sobre nós e sobre todo Israel. E dizei: Amen.

Iortseit — aniversário do falecimento

A data do falecimento dos pais é rememorada anualmente. Neste dia, os filhos recitam o Cadish nos três ofícios, acendem na véspera uma vela que fique acesa por 24 horas — “a alma do homem é a lâmpada do Eterno” — e visitam o túmulo, recitando os Salmos e a prece rememorativa El Malê Rachamim.

É um dia especialmente indicado para boas ações, atos de solidariedade humana e contribuições à caridade em intenção da alma do falecido.

Acenda uma vela virtual

A data do Iortseit de cada sepultura aparece em Localize e no histórico de óbitos.

Matsevá — a lápide tumular

Uma das funções básicas da pedra tumular é manter viva a memória do falecido. O costume de colocar uma lápide à cabeceira do túmulo remonta aos tempos bíblicos: “E erigiu Jacob um monumento (Matsevá) sobre a sua sepultura” (Gênesis 35:20). É um ato de reverência e respeito pelos falecidos — para que não sejam esquecidos, para que seu local de repouso não seja profanado e para perpetuar seus nomes.

Quando colocar

A pedra pode ser instalada desde o término da Shivá, porém o mais comum é providenciá-la até um ano após o sepultamento, para sua inauguração junto ao primeiro Iortseit.

O que deve ser gravado

Segundo a tradição judaica, a lápide deve ser simples, sem ostentação. Geralmente contém:

  • Nome em hebraico
  • Datas de nascimento e falecimento
  • Locais de nascimento e falecimento
  • Alguns acrescentam o nome do falecido, dos pais e o nome de família em hebraico

Importante: não temos o costume de afixar fotos nas sepulturas, assim como não temos o costume de fazer esculturas sobre a lápide.

Marmorarias credenciadas

Agendamento

A inauguração da Matsevá, as cerimônias rememorativas e as visitas acompanhadas são agendadas por telefone, com a unidade do campo santo onde está a sepultura.

Agendamento de cerimônias

Cerimônias religiosas, como Shloshim, Matsevá e Iortseit, entre outras, devem ser agendadas previamente no respectivo cemitério onde serão realizadas.

Atendimento de segunda a quinta, das 8h às 17h; e às sextas, das 8h às 16h.

Perguntas frequentes — 37 respostas curtas, do momento do falecimento ao Iortseit.